De todas as descobertas que acompanhei nos últimos anos sobre estimulação natural de GLP-1, uma me surpreendeu mais que qualquer outra — e veio de um alimento que milhões de brasileiros já consomem todos os dias sem saber do potencial que carregam na cuia. Um estudo publicado na revista Nutrients (MDPI) em 2025 revelou que a erva-mate aumenta a expressão gênica de GLP-1 e seus níveis plasmáticos por um mecanismo elegante e específico: os polifenóis da erva-mate são transformados pelas bactérias do seu intestino em um composto que estimula diretamente as células produtoras de GLP-1. E o mais interessante: esse efeito é seletivo — aumenta GLP-1 sem alterar GIP, o que evita efeitos colaterais lipogênicos. O chimarrão que você toma de manhã pode estar fazendo mais pelo seu metabolismo do que você imagina.
O Que Torna a Erva-Mate Especial Para o GLP-1
A erva-mate (Ilex paraguariensis) não é apenas mais um chá. É uma das bebidas mais ricas em compostos bioativos encontrados na natureza: ácido clorogênico, ácido ferúlico, ácido cafeico, quercetina, rutina, cafeína, teobromina e saponinas. É uma farmácia verde em forma de folha.
Mas o que chamou a atenção dos pesquisadores não foi a quantidade de compostos — foi o que as bactérias do intestino fazem com um deles.
O estudo de Cooper-Leavitt e colaboradores, publicado na Nutrients em 2025, fez uma descoberta fundamental. Os pesquisadores suplementaram camundongos com erva-mate por 4 semanas e observaram:
- Aumento significativo da expressão gênica de GLP-1 na mucosa do jejuno
- Níveis plasmáticos de GLP-1 elevados comparados ao grupo controle
- GIP (o outro hormônio incretina) não foi alterado — efeito seletivo
Até aqui, parecia mais um estudo animal promissor. Mas o pulo do gato veio quando testaram o mecanismo em células isoladas.
O Papel da Microbiota: O Intermediário Essencial
Quando os pesquisadores trataram células L (as produtoras de GLP-1) diretamente com extrato de erva-mate, o resultado foi decepcionante — não houve aumento de GLP-1. A erva-mate sozinha não faz nada nas células.
Então, o que acontece no intestino?
A resposta está no ácido ferúlico, um polifenol abundante na erva-mate. Quando esse ácido chega ao intestino, as bactérias benéficas o metabolizam e produzem ácido dihidroferúlico. É esse metabólito bacteriano que faz a mágica: nas células L, o ácido dihidroferúlico estimulou a produção de GLP-1 em mais de 2,5 vezes.
Pense assim: a erva-mate entrega a matéria-prima (ácido ferúlico). Suas bactérias intestinais são as operárias que transformam essa matéria-prima no produto ativo (ácido dihidroferúlico). E esse produto ativo aciona as células L para liberarem GLP-1. Sem bactérias saudáveis no intestino, a erva-mate perde boa parte desse efeito.
Isso tem uma implicação prática importante: a erva-mate funciona melhor em quem tem uma microbiota intestinal saudável. E a microbiota se fortalece com — adivinhe — fibras fermentáveis na alimentação. Tudo se conecta.
Além do GLP-1: Outros Mecanismos da Erva-Mate
O GLP-1 é o mecanismo mais recente e talvez mais empolgante, mas a erva-mate age por pelo menos quatro vias simultâneas.
Modulação da Leptina
Um estudo de Hussein e colaboradores, publicado no Biological and Pharmaceutical Bulletin em 2011, mostrou que a erva-mate modula os níveis de leptina — o hormônio que sinaliza ao cérebro que suas reservas de gordura estão adequadas. Em camundongos com dieta hiperlipídica, a erva-mate melhorou a sinalização de leptina no hipotálamo, combatendo a “resistência à leptina” que é comum em pessoas com excesso de peso. O resultado: redução significativa na ingestão alimentar e no peso corporal.
Termogênese e Oxidação de Gordura
As metilxantinas da erva-mate (cafeína e teobromina) aumentam o gasto energético e a oxidação lipídica. Alkhatib publicou na Nutrients em 2017 um estudo mostrando que o consumo de erva-mate aumentou a oxidação de gordura em 24% durante exercício em humanos. Os escores de fome e desejo de comer foram significativamente reduzidos (P < 0,05). Erva-mate e exercício juntos são uma combinação com sinergia documentada.
Ação Anti-inflamatória e Antioxidante
Os polifenóis da erva-mate — especialmente o ácido clorogênico — inibem a adipogênese (formação de novas células de gordura) e combatem a inflamação crônica que acompanha a obesidade. Uma revisão de Gambero e Ribeiro na Nutrients em 2015 compilou evidências mostrando que a erva-mate suprime o acúmulo de gordura visceral e reduz colesterol, triglicérides, LDL, glicose e insulina em modelos experimentais.
Saponinas e Receptores Amargos
As saponinas da erva-mate interferem no metabolismo do colesterol e podem contribuir para a saciedade via ativação de receptores de sabor amargo (TAS2R) no intestino — o mesmo tipo de receptor que a berberina ativa para estimular GLP-1.
O Que Dizem os Estudos em Humanos
Os dados mais relevantes em humanos vêm de um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo conduzido por Kim e colaboradores, publicado no BMC Complementary and Alternative Medicine em 2015.
O estudo avaliou 30 adultos obesos (IMC entre 25 e 35), divididos em grupo erva-mate (3g por dia em cápsulas) e grupo placebo, por 12 semanas. Os resultados:
- Massa de gordura corporal: redução significativa versus placebo (P = 0,036)
- Percentual de gordura: redução significativa (P = 0,030)
- Relação cintura-quadril: redução significativa (P = 0,004)
- Segurança: nenhuma alteração clinicamente significativa nos parâmetros de segurança
São resultados promissores, embora a amostra seja pequena (30 participantes). O mais relevante é que houve redução de gordura corporal e da relação cintura-quadril — marcadores que indicam perda de gordura visceral, o tipo mais perigoso para a saúde metabólica.
No meu consultório, tenho uma experiência curiosa com isso. O João Pedro, 44 anos, gaúcho de Cruz Alta, tomava chimarrão todo dia da vida e nunca associou isso à saúde metabólica. Quando mostrei os estudos, ele riu: “Doutora, então meu avô que toma chimarrão desde os 15 anos é magro por causa do mate?” Não necessariamente só por causa do mate, respondi. Mas as evidências sugerem que ele pode estar ajudando mais do que se imaginava.
Como Consumir Erva-Mate Para Maximizar o Efeito
A dose estudada no ECR humano foi de 3 gramas por dia de erva-mate. Em termos práticos:
Chimarrão (Sul do Brasil)
- 1-2 cuias de chimarrão fornecem dose equivalente ou superior à estudada
- Maior capacidade antioxidante entre todas as formas de preparo
- Cuidado com a temperatura: bebidas acima de 65 graus Celsius são classificadas como possível carcinógeno pela IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer). Isso não se refere à erva em si, mas ao líquido muito quente. A recomendação prática: ferva a água, desligue o fogo e espere 3-5 minutos antes de despejar na cuia, para que a temperatura caia para a faixa de 60-65 graus Celsius. Quando você consegue encostar a mão na chaleira sem queimar, a temperatura está adequada.
Tereré (Centro-Oeste e Norte)
- Infusão gelada com água fria ou suco natural
- Popular no Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraguai
- Temperatura baixa preserva compostos que o calor excessivo degrada
- Excelente alternativa para climas quentes e para quem se preocupa com a temperatura
Chá Mate (Todo o Brasil)
- Erva-mate torrada, consumida quente ou gelada
- Encontrada em qualquer supermercado (marcas como Leão, Matte Real)
- Menor concentração de compostos que o chimarrão — a torrefação degrada parte dos polifenóis
- Ainda assim, contém ácido clorogênico e cafeína em quantidades relevantes
Cápsulas de Erva-Mate
- Formato usado no ECR (3g/dia divididos em 3 refeições)
- Opção para quem não gosta do sabor
- Menos compostos voláteis que a infusão fresca
Minha recomendação prática: se você já toma chimarrão ou tereré, continue — você provavelmente já está consumindo uma dose eficaz. Se não faz parte da sua rotina, comece com 1-2 xícaras de chá mate por dia. A consistência importa mais que a quantidade exata.
Para Quem a Erva-Mate Funciona Melhor
Perfis que mais se beneficiam:
- Pessoas com sobrepeso e resistência à insulina — os múltiplos mecanismos da erva-mate (GLP-1, leptina, anti-inflamatório) atacam pontos centrais dessa condição
- Quem pratica exercício físico regular — o aumento de 24% na oxidação de gordura durante exercício é um bônus relevante
- Pessoas com microbiota intestinal saudável — lembre-se: o efeito GLP-1 depende das bactérias transformarem ácido ferúlico em dihidroferúlico. Quem come fibras fermentáveis regularmente tem mais chances de ter essas bactérias
- Quem busca saciedade prolongada entre refeições — os escores de fome caem significativamente
- Quem já usa estratégias acessíveis como a receita do Mounjaro de pobre com psyllium — a erva-mate complementa com outro mecanismo de ação
Quem deve ter cuidado:
- Pessoas sensíveis à cafeína — a erva-mate contém cafeína (1-2%, menos que café, mas presente). Pode causar insônia, irritabilidade ou taquicardia
- Gestantes — limitar cafeína total a 200 mg por dia (equivale a cerca de 2 cuias de chimarrão)
- Pessoas com arritmias cardíacas — doses altas de metilxantinas podem agravar
- Quem toma inibidores da MAO ou estimulantes — interação medicamentosa potencial
- Consumidores de chimarrão muito quente — ajustar temperatura para no máximo 65 graus Celsius (esperar 3-5 minutos após ferver)
Outra paciente minha, a Mariana, 35 anos, de Curitiba, tomava chimarrão escaldante desde a adolescência. Quando expliquei sobre a temperatura, ela ficou assustada. “Mas todo mundo no Sul toma assim.” Sim, e é exatamente por isso que o Rio Grande do Sul tem taxas mais altas de câncer de esôfago. Não é a erva — é a temperatura. Tereré é uma alternativa tão eficaz e completamente segura nesse aspecto.
Chimarrão, Tereré ou Chá Mate: Qual Escolher?
| Chimarrão | Tereré | Chá Mate | |
|---|---|---|---|
| Temperatura | Quente (60-65C ideal) | Fria | Quente ou fria |
| Capacidade antioxidante | Maior | Intermediária | Menor (torrefação) |
| Concentração de polifenóis | Alta | Alta | Moderada |
| Risco temperatura | Atenção necessária | Nenhum | Baixo |
| Praticidade | Requer bomba e cuia | Requer bomba e guampa | Simples (xícara) |
| Acesso no Brasil | Sul | Centro-Oeste | Todo o país |
Para efeito no GLP-1, chimarrão e tereré são provavelmente equivalentes, já que os polifenóis-chave (incluindo o ácido ferúlico) são preservados em ambos. O chá mate torrado é ligeiramente inferior pela perda de compostos na torrefação, mas continua sendo uma opção válida e muito mais acessível.
Perguntas Frequentes
Erva-mate realmente aumenta o GLP-1?
Sim, há evidência científica de que a erva-mate estimula a produção de GLP-1. Um estudo publicado na Nutrients (MDPI) em 2025 mostrou que a erva-mate aumenta a expressão gênica e os níveis plasmáticos de GLP-1 por meio de um mecanismo mediado pela microbiota intestinal, envolvendo o metabolismo do ácido ferúlico. Porém, os dados em humanos ainda são limitados.
Quanto de erva-mate preciso tomar por dia?
O ensaio clínico humano usou 3 gramas por dia, equivalente a 1-2 cuias de chimarrão. O consumo habitual no Sul do Brasil (300-500 ml por dia de infusão) provavelmente fornece dose adequada. O mais importante é a consistência diária.
Chimarrão quente é perigoso para a saúde?
A erva-mate em si não é perigosa. O risco está na temperatura: líquidos acima de 65 graus Celsius são classificados como possível carcinógeno pela IARC, independentemente do tipo de bebida. A recomendação é esperar a água esfriar para abaixo de 65 graus antes de preparar. Tereré (gelado) elimina completamente esse risco.
Erva-mate funciona melhor que a berberina para GLP-1?
São mecanismos diferentes e complementares. A berberina ativa receptores amargos (TAS2R) diretamente nas células L. A erva-mate depende da microbiota para produzir o metabólito ativo (ácido dihidroferúlico). Não há estudo comparando os dois diretamente. Podem ser usados em conjunto.
Posso tomar erva-mate à noite?
A erva-mate contém cafeína (1-2%), portanto pode interferir no sono se consumida à noite. Recomendo consumir até o meio da tarde. Se você é sensível à cafeína, limite o consumo ao período da manhã.
Conclusão: O Que Você Pode Fazer Amanhã
A erva-mate tem evidências promissoras e crescentes para estimulação de GLP-1, com um mecanismo específico e recentemente elucidado. Não é um medicamento e não substitui tratamento prescrito — mas é um hábito acessível, seguro e profundamente enraizado na cultura brasileira.
Meu passo acionável: se você ainda não consome erva-mate, comece com uma xícara de chá mate após o almoço esta semana. Se já toma chimarrão, cuide da temperatura (máximo 65 graus) e combine com uma alimentação rica em fibras fermentáveis para fortalecer a microbiota que transforma o ácido ferúlico no composto que ativa seu GLP-1. E se você está no Centro-Oeste e já toma tereré, saiba que você pode estar um passo à frente sem saber. A ordem dos alimentos na refeição combinada com a erva-mate cria uma estratégia ainda mais potente.
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico ou nutricional individualizado. Consulte um profissional de saúde antes de fazer mudanças em sua alimentação ou suplementação.
Referência externa: Cooper-Leavitt KN et al. “The Incretin Effect of Yerba Mate Is Partially Dependent on Gut-Mediated Metabolism of Ferulic Acid.” Nutrients, 2025.